O sicario (filme) de Denis Villeneuve é uma experiência cinematográfica que usa todos os elementos do thriller de ação para servir um argumento sobre como governos democráticos conduzem operações que violam os princípios que afirmam defender, e que faz isso com uma elegância formal e uma intensidade emocional que raramente se encontra juntas no mesmo produto de entretenimento popular. Com 93% no Rotten Tomatoes e múltiplas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Fotografia para Roger Deakins, Sicário é um dos filmes mais bem avaliados do gênero de thriller político da última década.
O cartel como antagonismo sem rosto
Uma das escolhas mais inteligentes de Sicário é a de nunca personificar o cartel de forma que crie um antagonista dramático convencional. O mal que o filme retrata não tem rosto, não tem diálogos longos, não tem cenas de exposição de planos maléficos, existe como força que moldou o território, que deixou corpos empalados em casas de subúrbio americano e que opera de formas que o espectador vê apenas nos vestígios que deixa. Essa escolha de tornar o antagonismo abstrato é o que torna o filme mais perturbador do que qualquer vilão específico poderia ser.
Josh Brolin como Matt Graver é o personagem que representa o governo americano em Sicário, e Brolin interpretou o agente com uma leveza deliberada que tornava o personagem mais desconcertante do que qualquer representação de antagonismo explícito. Matt parece gostar do que faz, trata a operação como problema técnico a ser resolvido e mantém uma jovialidade que contrasta brutalmente com as consequências do que ele ordena. Essa combinação de competência profissional, boa disposição pessoal e indiferença moral é a representação mais honesta que o cinema americano recente fez do tipo de agente que opera na zona cinzenta entre guerra e lei.
A sequência final e o que ela diz sobre escolhas impossíveis
O terceiro ato de Sicário coloca Kate Macer numa situação que não tem saída boa, uma encruzilhada onde qualquer escolha que ela faça implica em comprometimento de algo fundamental. A forma como o roteiro de Taylor Sheridan construiu essa armadilha moral ao longo de duas horas de narrativa, colocando Kate em posições progressivamente mais comprometidas até o momento em que a armadilha se fecha, é o trabalho de roteiro mais sofisticado do gênero de thriller político americano do período.
A trilogia informal de Taylor Sheridan sobre a fronteira
Sicário é o primeiro de três roteiros que Taylor Sheridan escreveu sobre o que ele descreveu como a fronteira americana moderna, seguido por Hell or High Water sobre o Texas rural e por Wind River sobre uma reserva indígena no Wyoming. Os três filmes compartilham uma preocupação com territórios onde as instituições americanas falham ou operam com regras diferentes das que vigoram no resto do país.
Vistos em conjunto, os três formam um retrato de um país onde a lei é uma abstração que se aplica de forma desigual dependendo de onde você está e de quem você é. Sicário é o mais sombrio dos três porque é o único onde as instituições não falham por negligência, mas por escolha deliberada.
O filme abre com um cartão explicando que sicário significa assassino de aluguel, com origem nos zelotes que matavam romanos na Judeia. Essa etimologia, colocada antes de qualquer imagem, estabelece o argumento do filme antes que a narrativa comece, a violência política contratada tem dois mil anos de história e não é uma anomalia do presente.
A revelação de quem exatamente é o sicário do título é o eixo em torno do qual todo o terceiro ato gira, e a resposta é mais desconfortável do que qualquer espectador antecipa nos primeiros minutos.
A recepção no México
Sicário gerou controvérsia significativa no México, com o prefeito de Ciudad Juárez condenando publicamente a representação da cidade e pedindo boicote ao filme. A crítica apontava que a produção retratava Juárez exclusivamente como território de violência extrema, ignorando que a cidade havia reduzido drasticamente seus índices de homicídio nos anos anteriores ao lançamento.
Essa tensão entre a licença dramática e a responsabilidade sobre a representação de lugares reais é um debate legítimo que acompanha todo filme ambientado em territórios de conflito, e a resposta de Villeneuve foi que o filme retrata uma percepção americana da fronteira em vez de propor um retrato documental do México.
Em 2018, Stefano Sollima dirigiu Soldado, a sequência de Sicário que expandiu o universo do filme original sem a presença de Emily Blunt mas mantendo Josh Brolin e Benicio del Toro. A decisão de continuar a história sem o ponto de vista moral que Kate oferecia criou um filme mais escuro e mais perturbador em alguns aspectos, com Villeneuve como produtor executivo garantindo a coerência de tom. Para quem assiste Sicário no streaming gratuito, a existência de uma sequência completa cria a possibilidade de explorar mais profundamente o universo que o primeiro filme apenas parcialmente revelou.
A revelação de quem exatamente é o sicário do título é o eixo em torno do qual todo o terceiro ato gira, e a resposta é mais desconfortável do que qualquer espectador antecipa nos primeiros minutos. O cartão de abertura que explica a origem histórica da palavra, ligada aos zelotes que matavam romanos na Judeia, estabelece antes de qualquer imagem que a violência política contratada tem dois mil anos de história e não é anomalia do presente.
Uma terceira parte da franquia foi anunciada com o retorno de Benicio del Toro e Josh Brolin, mantendo o universo em expansão quase uma década depois do filme original. Se o projeto conseguirá recuperar o rigor moral que Villeneuve havia estabelecido permanece uma questão aberta.









