Tributo a Tunga

Artista morto em junho inspira a exposição “Em polvorosa”, na qual obras são as protagonistas

Luisa Duarte

A mostra “Em Polvorosa – Um panorama das coleções do MAM Rio”, curada por Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes, foi toda construída a partir das coleções pertencentes ao MAM, quais sejam, a do próprio museu, a de Gilberto Chateaubriand e a de Joaquim Paiva, reunindo cerca de 400 obras, entre mais de cem artistas brasileiros e estrangeiros. Sem fazer alarde, a exposição prescinde do lugar de uma autoria curatorial. Logo no texto de apresentação a dupla de curadores afirma que estamos diante de um livre exercício “sem qualquer pretensão de traçar por meio das coleções do MAM um panorama ilustrativo de questões teórico-verbais. (…) A pesquisa desses acervos nos apontou, com base em suas próprias histórias, critérios para a edição dessa mostra”.

Note-se, não se trata de deslegitimar abordagens curatoriais que formulam uma tese em diálogo com os trabalhos. Esse tipo de tratamento pode resultar em excelentes exposições e na edificação de um tipo de saber específico e fértil, mas o caminho visto nesse caso é outro. É a partir das obras que alguns conjuntos são amarrados, que conversas são sugeridas. Não existe um eixo que coordene todo o percurso, mas sim breves diálogos. A aproximação de nomes tão díspares como Alberto Magnelli, Maria Leontina, Antonio Bandeira e Jackson Pollock finda por se revelar muito feliz, por exemplo. Pontos altos também são os conjuntos de trabalhos de toda uma geração surgida na passagem dos anos 1980 para os 1990, com Marcos Chaves, Tatiana Grinberg, Brígida Baltar, Fernanda Gomes, José Damasceno, Raul Mourão, entre outros, assim como resulta muito bem-sucedida a remontagem de instalações de grande escala. A ida ao MAM nos reserva a chance preciosa de experimentar “Marulho”, de Cildo Meireles, entrar em “Fantasma”, de Antonio Manuel; e tomar contato com momentos importantes dos trabalhos de Waltercio Caldas e Ivens Machado, com “Ping-Ping, a construção do abismo no piscar dos cegos” e “Cerimônia em três tempos”, respectivamente.

POR LIBERDADE
“Em polvorosa – Um panorama das coleções do MAM Rio” tem em seu título uma homenagem a Tunga, morto em junho. A exposição é aberta com uma das obras sem título da série “Desenhos em polvorosa”, realizada em 1996. Ali vemos corpos entrelaçados que formam um contínuo e evocam o erotismo, questões caras ao artista. Se a curadoria dessa exposição prescinde de um lugar demasiadamente autoral para deixar que as obras tenham protagonismo, é justamente nesse gesto que se faz a maior homenagem ao artista, pois, como nos lembrou Thiago Rocha Pitta em texto recente sobre Tunga: “celebremos sua obra, mas não deixemos de ecoar sua contundência crítica e de lutar por um espaço de liberdade num cenário altamente domesticado, em que a arte não é mais determinada pelos artistas, mas pela opinião daqueles que julgam o que ela é. Devolver ao artista a liberdade perversamente amputada: uma tarefa talvez para poucos – para menos ainda depois de sua morte”. Assim, “Em polvorosa”, menos do que uma celebração da obra, afinal há somente um desenho do artista, faz, mesmo sem ter planejado, uma homenagem ao modo de ver o lugar da arte e dos artistas próprio a Tunga. Gesto não menos importante e certamente necessário em uma época de sinais tão invertidos como a nossa.

 

Publicado no jornal O GLOBO, segundo caderno, 17.10.2016

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