Cinemateca

CINEMA, ARQUIVOS E PRESERVAÇÃO

Conhecer o cinema em suas variadas manifestações é uma tarefa complexa e intrincada. A produção cinematográfica profissional difundiu-se por praticamente todos os países do mundo ao longo do século XX. E a amadora, depois de passar décadas restrita às famílias mais abastadas, viu-se crescentemente praticada com o advento do computador, do equipamento de captação digital e da internet. Como expressões altamente significativas da cultura e das sociedades modernas e contemporâneas, representam uma documentação privilegiada para a compreensão da história do mundo e para a formulação de novas idéias, projetos, obras, programas e políticas, ou simplesmente para um novo contato com o objeto que nos interessou de alguma forma em algum momento da vida.

Restituir o passado e coletar o presente dos materiais que registram imagens em movimento e que quase sempre estão associadas a uma trilha sonora tornou-se com o tempo a tarefa das cinematecas. Tarefa ampliada porque este universo não se restringe só aos filmes, mas abarca a documentação não-fílmica associada a eles, indo da publicidade ao roteiro, das críticas jornalísticas aos acetatos para animação, das revistas de divulgação cinematográfica às dissertações e teses acadêmicas, apenas para mencionar algumas modalidades e suportes de informação da área. A idéia da constituição de espaços de salvaguarda do patrimônio audiovisual surgiu na década de 30 do século passado como uma estratégia para enfrentar o desaparecimento sistemático da produção inicial do cinema, ameaçada pela obsolescência tecnológica e pela baixa rentabilidade, após o momento de lançamento comercial. Foi também à época uma iniciativa para afirmar e defender o caráter artístico do cinema. Com o tempo, impedir a destruição e promover a preservação dos filmes, vídeos e mídias óticas e digitais e documentação conexa, passou a ser uma ação mais ampla, reconhecida por toda a sociedade como um dos novos pilares de desenvolvimento educativo e cultural das nações.

Por conta do caráter massivo da produção audiovisual profissional e amadora e do entendimento de que sua importância extravasa eventuais qualidades estéticas, tendo se transformado em objeto de múltiplo uso pelas sociedades contemporâneas, o processamento destes materiais ganhou enquadramento arquivístico prioritário, sem prejuízo a eventuais usos biblioteconômicos e museológicos. As cinematecas, como grandes arquivos não-hierárquicos e sem preconceitos de qualquer ordem, procuram abrigar e acumular sistematicamente a produção corrente de uma cidade, uma região, um país, uma área, um gênero, um tema, ou, como é o caso da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, um mix de todas as possibilidades. Tal disposição é complementada pela iniciativa de restituir o cinema em sua linha de evolução social, cultural, artística e tecnológica pelo lado mais conhecido e intangível que é o da exibição das obras audiovisuais. É no espaço da sala de projeção que se presentificam os rituais históricos da área, indo do chamado cinema “mudo” à projeção digital em terceira dimensão. Aqui a preservação audiovisual ganha corpo definitivo, trazendo novamente ao convívio social as mais variadas características da expressão e do espetáculo cinematográficos.

 

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