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Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares – Nelson Felix

08 de Abril a 04 de Junho de 2017

O museu é instrumento

 

Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares é o quarto e último trabalho da série Método poético para descontrole de localidade (1984-2017). Como expressa o título, esses trabalhos visam traduzir uma ideia de espaço, simultâneo, de construção poética, que amalgamam locais por meio do desenho e de ações semelhantes. Assim como em Grafite (1986), no qual posicionava a peça de acordo com o eixo do sol, o espaço desta série de trabalhos também remete constantemente a um lugar aqui e outro acolá, ou seja, uma espécie de aqui diverso.

No método …, ao utilizar sempre uma poesia, aproxima-se o processo aos livros de poesia moderna, em que desenhos ou gravuras criavam uma relação entre texto e imagem. Nesse sentido, esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma noção de lugar que se submete a um desenho no próprio globo terrestre.

As três obras anteriores da série – 4 cantos, Verso e Um canto para onde não há canto –, utilizam o espaço em sua estrutura mais simples: o canto, o verso e o centro. A esses elementos soma-se a observação multifacetada do nosso entorno atual. Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não físicos, acoplados a esse entorno, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo, etc. O nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo. Este quarto trabalho, como os primeiros, também reúne ambientes externos e internos, mas seu interesse se encontra no duplo significado criado no próprio sítio da exposição.

Descrições:

4 cantos e Verso partem dos termos espaço e poesia. No ambíguo significado na língua portuguesa, com as palavras canto e verso; ora com sentido espacial, ora com sentido poético.

4 cantos (2007/2008), realizado em Portugal, a convite da Fundação Serralves, alude à forma retangular do contorno geográfico do país. Em um caminhão munck, carregado com quatro blocos de pedra (de seis a oito toneladas cada), percorre os quatro extremos do seu território. Nos três primeiros, em espaços externos, coloca as rochas sobre o solo e o artista as desenha incessantemente, apreendendo a forma e o entorno (a própria paisagem), que elas naquele momento marcavam. No último, já em ambiente interno, tomba os blocos contra as paredes dos quatro cantos da sala expositiva e os fixa com ponteiras de bronze onde estavam gravados oito versos do poema “Casa térrea”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Juntos, os cantos dos espaços externos, os cantos do espaço expositivo e o canto do poema se imantavam e aludiam a outra escala.

Verso (2011/2013) nasce da observação de que a cidade de São Paulo, o principal centro brasileiro, encontra-se equidistante e sobre uma linha imaginária que liga duas pequenas ilhas, uma no Oceano Pacífico (arquipélago de San Juan) e outra no Atlântico (Ascensão). O artista viaja pelas duas ilhas, dois opostos, dois versos – criados no globo terrestre. Nelas, coloca-se numa direção em que o olhar para o horizonte desse a volta na circunferência do planeta até alcançar São Paulo. Nesses dois locais finca três peças de bronze, que remetem à decomposição das três partes da letra A – uma homenagem ao poeta catalão Joan Brossa e ao seu poema intitulado “Desmuntatge”. Depois desenha incessantemente até impregnar-se do local e da paisagem dessas ilhas. Em São Paulo, insere peças circulares de mármore e torna a fincar as três partes da letra A em bronze, no espaço expositivo da galeria. Em Verso, não há um espaço único, configurado em uma sala, mas o trabalho remete poeticamente a uma noção espacial circular, de uma escala dilatada até a impossibilidade de percepção física, mas unida por ações similares e pela forma de uma letra.

Um canto para onde não há canto (2009/2011), feito para a cidade de Brasília, a convite do CCBB, aborda o centro como um local ausente ou onipresente. O centro está onde está o interesse, e não mais o lugar geométrico. Parte do princípio urbanístico de que essa cidade “central” não tem esquinas. Traça um retângulo, que envolve os dois eixos do plano diretor e assim constrói quatro cantos ao traçado. O artista leva para cada um desses locais um vaso com a inscrição de uma das estrofes do poema “La voce”, de Cesare Pavese, onde se encontra cultivada uma planta sensitiva, mimosa pudica (dormideira). Após tocar a planta e seguindo a sua retração, inicia uma série de desenhos, visando construir nesses locais um cantar poético, pela impregnação da poesia no ato contínuo de horas de desenho. Tudo que foi utilizado nesses quatro pontos é deixado in loco, nada de material persiste ou foi levado. Assim, nenhum objeto consta no espaço interno e expositivo, somente a referência da presença da poesia, do toque e dos desenhos, feitos e abandonados nesses quatro sítios da cidade.

Trilha para 2 lugares e trilha para 2 lugares (1984/2017) se refere a um espaço construído por três ações e unido pelo acaso de uma poesia que, usada uma única vez, no início, norteia toda a obra.

Os trabalhos de Método… são pensamentos poéticos sobre o espaço, e nesse quarto trabalho somou-se o atual conceito espacial de corda, e com ele, acoplado, o som. No museu, um forte estiramento na sua arquitetura indica uma direção, o percurso poético realizado pelo artista no globo. No som,a trilha sonora, feita in loco para os vídeos elaborados nas ações desse trajeto.

É na reunião desses três locais, mas principalmente, onde o trabalho emerge, que recai a atenção. Nesse sítio, um duplo se cria – o museu, como, e é, instrumento de arte.

Trilha… é dedicado a Mallarmé e ao seu central poema ‘Um lance de dado jamais abolirá o acaso’”, texto extraído de uma entrevista ao poeta Alberto Pucheu.

Lanço um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, numa data e hora estabelecidas e num local incidental do curso duma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Os locais do trabalho são firmados nesta ação: Cítera (ilha grega) e Santa Rosa (pampa argentino). Observo depois, que vários artistas realizaram obras sobre a peregrinação a esta ilha:Watteau, Gerard de Nerval, Verlaine, Victor Hugo, Debussy, mas recentemente Theo Angelopoulos e principalmente Baudelaire, grande influência de Mallarmé. Como uma epígrafe, ou uma homenagem – um vir ao caso –, defino um terceiro local, o restaurante La Closerie des Lilas, em Paris. Todos, com exceção de Watteau (precursor do tema), frequentaram este café.

Nos três locais – Cítera, Santa Rosa e La Closerie – lanço, enterro e abandono dados de bronze e desenho compulsivamente. O trabalho é finalizado no MAM do Rio, onde uso o museu, também como um objeto, e duplico assim sua ideia de lugar. Grosso modo, poeticamente, Pucheu…, 3 locais em 2 lugares de 1 mesmo espaço.

Agradecimentos

Carole Chrètienot (La Closerie des Lilas),Charles Cosac, Bela Muller, Ary Perez, Fernanda Pitta, Alberto Pucheu, Mauro Saraiva e Justo Werlang

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The Museum is an Instrument

Trail to 2 Places and Trail for 2 Places is the fourth and last work from the Poetic Method for Losing Control of Place series (1984-2017). As the title suggests, these works are designed to translate an idea of space, simultaneous, of poetic construction, which blend different places through drawing and similar actions. As in Graphite (1986), where the pieces were positioned according to the Sun’s axis, the space for this series of works also constantly refers to one place here and another place there; in other words, a kind of diverse hereness.

In Method …, the constant use of poetry draws the process closer to books of modern poetry, where drawings or prints offered links between text and image. In this sense, the sculptures, drawings, actions, photographs, videos, and displacements illustrate a text, forming a notion of place that is subject to a drawing on the Earth itself.

The three earlier works from the series – 4 Corners, Verse and A Corner for the Cornerless – use space in their simpler structure: the song, the verse, and the center. Added to these elements is the multifaceted observation of our present-day surroundings. Today, there is an intermingling of physical and non-physical factors connected to these surroundings; factors like information, meanings, history, hierarchy, time, etc. Our present-day space, at least in art, is no longer so pristine. This fourth work, like the first ones, also combines internal and external environments, but its interest lies in the dual meaning created at the exhibition site itself.

Descriptions:

4 Corners and Verse emerge from the terms space and poetry. In their ambiguous meaning in Portuguese, the words “canto” [corner/song] and “verso” [verse] can have both a spatial meaning and a poetic one.

4 Corners (2007-2008), executed in Portugal on the invitation of the Serralves Foundation, alludes to the rectangular form of the country’s geographical outline. In a crane truck loaded with four blocks of stone (each one weighing between six and eight tons), the artist travels to the four corners of the land. At the first three points, the stones are set on the ground in an outdoor location, and the artist draws them incessantly, apprehending the form and the surroundings (the landscape itself) which they impact at that moment. At the last point, now in an indoor setting, he leans the blocks against the walls of the four corners of the exhibition room, holding them up with bronze bars, on which are engraved eight verses of the poem “Casa Térrea” by Sophia de Mello Breyner Andresen. The corners of the outdoor space, the corners of the exhibition space, and the song of the poem are drawn together and allude to a different scale.

Verse (2011-2013) emerges from the observation that São Paulo, the biggest city in Brazil, is equidistant from and on the same imaginary line as two small islands, one in the Pacific Ocean (San Juan archipelago) and the other in the Atlantic (Ascension). The artist travels to both islands – two opposite points, two verses created in the Earth. There, he stands looking towards the exact point on the horizon where the line around the circumference of the planet would reach São Paulo. At these three places he erects three bronze pieces shaped as the three separate parts of the letter A – a tribute to Catalan poet Joan Brossa and his poem, “Desmuntatge.” Afterwards, he draws incessantly until he has soaked up the landscapes and settings of these islands. In São Paulo, he introduces circular marble pieces and, again, the three parts of the letter A in bronze to the gallery space. In Verse, there is no one space configured in one room; rather, the work poetically reminds us of a circular notion of space, a scale expanded until its physical perception is no longer possible, yet united by similar actions and by the form of a letter.

A Corner for the Cornerless (2009-2011), produced for Brasília on the invitation of CCBB, addresses the center as an absent or ubiquitous place. The center is now where the interest lies, rather than the geometrical place. The starting point is the urban design concept for this “central” city, which has no street corners. The artist draws a rectangle around the two axes of the master plan, thereby giving its outline four corners. He takes a potted sensitive plant (or touch-me-not, Mimosa pudica) to each of these sites, with one of the strophes of Cesare Pavese’s poem “La Voce” inscribed on the pots. After touching the plant and waiting for it to retract, he begins a series of drawings with a view to developing a poetic canticle at these sites by impregnating poetry in the continuous act of hours of drawing. All that is used at these four sites is left behind; no material remains last there and nothing is taken away. As such, no object is to be found in the indoor exhibition space, just the reference that is the presence of the poetry, the touch, and the drawings, all made and abandoned at these four sites in the city.

Trail to 2 Places and Trail for 2 Places (2017) refers to a space constructed by three actions and united by the contingency of a poem, which, used a single time at the beginning, guides the rest of the work.

The works from the Method… series are poetic reflections on space, and in this fourth work the spatial concept of string is integrated and combined with sound. In the museum, a marked stretching in its architecture indicates a direction, the poetic journey taken by the artist round the Globe. Aurally, there is the soundtrack, made on site for the videos shot during the actions of this journey.

It is in the conjunction of these three places, but especially where the work emerges, that attention is focused. At this site, a duality is set up – the museum as, and is, an instrument of art.

Trail… is dedicated to Mallarmé and his central poem, “A throw of the dice will never abolish chance.” The text is taken from an interview with the poet Alberto Pucheu.

I throw a dice with the number six on all its sides on a mappa mundi, on a preset day and time and at an incidental place along a road. Once thrown, the dice defines chance, no longer by the randomness of the number, but by the randomness of the place where it lands on the map. The places of the work are selected through this action: Kythira (Greek island) and Santa Rosa (Argentinean Pampas). I notice afterwards that several artists have produced works about pilgrimages to this island: Watteau, Gerard de Nerval, Verlaine, Victor Hugo, Debussy, and more recently Theo Angelopoulos; and, above all, Baudelaire, a great influence on Mallarmé. As an epigraph or homage – a work of chance – I pick a third place, the restaurant La Closerie des Lilas in Paris. All, with the exception of Watteau (precursor of the subject matter), frequented this café.

In all three places – Kythira, Santa Rosa, and La Closerie – I cast, bury, and leave behind bronze dice and draw compulsively. The work ends in MAM Rio, where I also use the museum as an object and thereby duplicate the idea of place. Broadly speaking, poetically, Pucheu…, 3 sites in 2 places from one and the same space.

Thanks to

Carole Chrètienot (La Closerie des Lilas),Charles Cosac, Bela Muller, Ary Perez, Fernanda Pitta, Alberto Pucheu, Mauro Saraiva, and Justo Werlang

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