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Todo ideal nasce vago – Eloá Carvalho

03 de Dezembro a 09 de Abril de 2017

A artista Eloá Carvalho tem desenvolvido projetos que partem da história de instituições – por meio da investigação de documentos visuais e textuais, relatos orais, objetos e mobiliário, etc. – para em seguida estabelecer um profícuo diálogo com a memória e as características desses espaços. Seu trabalho articula diferentes camadas de memória, mediante um cuidadoso processo de edição do material pesquisado, propondo conexões entre imagens e narrativas, assim como a articulação de diferentes temporalidades e espacialidades, em consonância com seus locais de exibição.

Em 2013 a artista realizou o projeto Mise en Scène, a partir do acervo iconográfico da Galeria de Arte Ibeu. A pesquisa desdobrou-se na exposição, em que personagens que habitaram aquela galeria em diferentes épocas passaram a coexistir na mesma temporalidade e espacialidade da mostra. A partir desse projeto, Eloá Carvalho foi convidada em 2015 para realizar uma individual na Galeria do Lago, no Museu da República, desenvolvendo sua pesquisa a partir da história e da arquitetura do Palácio do Catete, assim como da relação afetiva dos visitantes do museu em relação à memória do espaço.

O projeto que Eloá Carvalho desenvolve no MAM propõe um retorno à pesquisa iconográfica, considerando-se o arquivo documental das fotografias de exposições realizadas no museu, da década de 1950 até registros produzidos pela própria artista em visitas às mostras recentes. Além da investigação histórica e iconográfica, as pinturas produzidas pela artista para a mostra Todo ideal nasce vago, com curadoria de Ivair Reinaldim, ressaltam sua percepção poética das características físicas e ideológicas dos espaços expositivos e seus usos e afetos a partir da presença do corpo do espectador. Sua linha de pesquisa reforça o uso da documentação histórica não como mera apropriação ou pastiche, mas, a partir de articulações mais complexas, que em si, não escondem idiossincrasias e conflitos internos, para estimular a constituição de novos olhares para o espaço e sua memória.

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Todo ideal nasce vago

A história do Museu de Arte Moderna não é necessariamenteuma narrativa estruturada em uma única linha cronológica, como muitas vezes podemos considerar. De fato, há tantas versões para essa história quantas foram as pessoas que idealizaram a instituição, habitaram seus espaços no decorrer das décadas e fizeram do MAM um marco na cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, há tantas narrativas quanto museus, pois ele é sempre múltiplo na singularidade dos relatos e das memórias. Em meio a essa evidência, o modo escolhido por Eloá Carvalho para tecer sua narrativa sui generis partiu deum inventário de imagens de pessoas, objetos e situações que a artista identificou em meio a uma ampla investigação no arquivo da instituição e em bibliografia produzida por outros pesquisadores: um conjunto de imagens e relatos que constituium imaginário-museu multifacetado.

Quem se refere a arquivo, adentra o labirinto. E embora Eloá Carvalho tenha se aventurado nos arquivos iconográficos da instituição – das fotografias de mostras individuais e coletivas às de eventos variados promovidos em seus espaços, de registros dos processos de construção do edifício projetado por Affonso E. Reidy a imagens do público que frequenta os espaços do museu e seus jardins –, o método arqueológico empregado pela artista constitui-se verdadeiro “fio de Ariadne” a conduzi-la nos meandros desse território, capaz de tecer aquilo que é lembrado –  e porque é lembrado – comotambém o que é esquecido ou nem sempre inventariado. No entanto, cabe o alerta: o conjunto de pinturas aqui apresentado, resultante desse processo de pesquisa e alinhavo,não se resume à “história do MAM”, muito menos a retrato de personagens de um passado que insiste ou deseja fazer-sepresente. Fragmentos selecionados e elaborados por processos de montagem e construção pictórica emergem desse arquivo ejuntos tornam-se pontos de tessitura de uma narrativa.Guardam, entretanto, sua autonomia ao evidenciarem suas histórias particulares. São imagens que ganham corpo, densidade e visibilidade, insinuando-se mais como presença revolvida do que como evidência comemorativa ou ilustrativa.

Mas, afinal, a que se refere esta exposição? Que ideal é esse em seu título que nasce vago? Um projeto de museu? Um projeto de pintura? Um projeto de arte? Ao olhar para o passado, ao revolver imagens e relatos de arquivos reais e imaginários, ao reativar memórias coletivas e individuais, ao evidenciar apagamentos e esquecimentos, ao reintroduzir esse material no fluxo das visibilidades e na tessitura de sua narrativa, Eloá Carvalho reafirma-o mediante sua existência: fala não de um museu, mas de museus como visões partilhadas entre pessoas; não de pinturas, mas da pintura como ato e modo de conceituar o mundo; não da arte como visão elitista, mas do papel que ela pode e deve assumir diante da formação e do reconhecimento de um mundo em constante transformação. Se o relato reforça que “todo ideal nasce vago”, seja ele qual for, sua continuidade conclui que “é o calor humano que lhe dá corpo e consistência”. Reside aí o testemunho de seu propósito e de sua concretização.

Ivair Reinaldim
Curador

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Every ideal starts out vague

 

 

The history of Museu de Arte Moderna is not necessarily a narrative structured along a single chronological line as we might often think. In fact, there are just as many versions of the history as there are people who have envisaged this institution, inhabited its rooms over the decades, and made MAM a landmark in this city of Rio de Janeiro. In other words, there are as many narratives as there are museums, because it is always multiple in the singularity of the accounts and memories of it. In the midst of this evidence, Eloá Carvalho has chosen to weave her sui generis narrative from an inventory of images of people, objects, and situations she has identified from a wide-ranging investigation of the institution’s archives and publications by other researchers: a set of images and accounts that constitute a multifaceted museum-imaginary.

 

Venturing into an archive means venturing into a labyrinth. And while Eloá Carvalho has in fact roamed around the institution’s picture archives – from photographs of solo and collective shows to the many and varied events held in its premises; from documents recording the construction of the building designed by Affonso E. Reidy to images of the visitors to the museum and its gardens – her archaeological method constitutes a veritable “Ariadne’s thread,” wending its way through this terrain, weaving together things that are remembered – because they are remembered – as well as things that are forgotten or not necessarily officially recorded. Nonetheless, a word of caution: the set of paintings presented here as a result of this research and organization process cannot be seen as encapsulating “the history of MAM,” much less as portraying characters from a past that insinuates or wills itself on the present. Fragments selected and elaborated in montages and pictorial constructs emerge from this archive and become the warp and weft of a narrative. Yet they maintain their autonomy in presenting their own particular stories. They gain substance, materiality, and visibility, taking their place more as are viewed presence than as commemorative or illustrative evidence.

 

But ultimately, what is this exhibition about? What is the ideal in its title that starts out vague? A plan for a museum? A plan for painting? A plan for art? By looking back, reviewing images and accounts from real and imaginary archives, by eliciting shared and individual memories, by showing up what has been forgotten or erased, by reintroducing this material to the flux of visibilities and the web of her narrative, Eloá Carvalho reaffirms the past through its existence: it speaks not of a museum, but of museums as visions shared amongst people; not of paintings, but of painting as an act and mode of conceiving of the world; not of art as an elitist vision, but of the role it can and should have in the shaping and recognition of a world in a constant state of transformation. If the account reinforces the idea that “every ideal starts out vague,” whatever it is, its continuity concludes that “it is human warmth that gives it substance and consistency.” Therein lies the testimony of her proposal and its fruition.
Ivair Reinaldim
Curator

Realização: Mantenedores do MAM Rio

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