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Mats Hjelm – A Outra Margem

26 de Julho a 03 de Setembro de 2017

Videoinstalação inédita do sueco Mats Hjelm,A outra Margem integra a programação periódica de exposições temporárias de artistas contemporâneos brasileiros e estrangeiros, cujas obras, sobretudo quando não representadas nas coleções do Museu de Arte moderna,complementam seu atual perfil moderno e contemporâneo. Mas a tal relevância, somam-se questões específicas deste trabalho que justificam e reforçam ainda mais o MAM, situado à beira-mar do Rio de Janeiro, como um espaço privilegiado para a realização desta exposição, já que a cidade situada no Atlântico sulé, de acordo com as escolhas poéticas de Mats, uma das margens visíveis do trabalho.
A outra margem nos propõe uma reflexão poéticasobre o Atlântico como lugar de passagem entre as diversas margens desse oceano que une as histórias de diáspora, colonização e o mistério da libertação por meio da navegação para “outro” lugar, e o horror do cativeiro à espera daqueles que o navegam contra sua vontade e o caminho de volta à terra mãe.
A sintaxe multimidiática de Hjelm, produzida por meio da correlação editada de imagens, textos, músicas, cantos−meios frequentemente separados por noções de linguagem autônomas e puras, legadas pelo modernismo – integra-se num todo hibridizado, como equivalente poético de nosso polarizado cotidiano. Consequentemente, A outra margemtem uma forte pulsão semântico-narrativa que a faz transbordar da estrutura interna dos sistemas linguísticos, para o mundo externo com o qual poeticamente se conecta.
Tal transbordamento não resulta, porém, da edição linear de sons e imagens que se sucedem numa sequência dada. São quatro projeções simultâneas, duas a duas, na frente e no verso da tela que nos mostram em um dos lados registros sonoro-visuais de obras literárias, musicais−de pessoas e paisagens−gravadas àsmargensdo Atlântico, combinadas em fluxos que nem sempre se encaixam logicamente.No outro lado da tela, projeções de imagens aquáticasnos sugerem o caminho líquido formado pelas margens que delimitam o Atlântico qual uma gigantesca web oceânica que vem permitindo a circulação geográfica de massivos contingentes humanos. Uma história impossível de ser completada na esfera discursiva, mas que pode ser aqui poeticamente experimentada.

Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes
Curadoria do MAM Rio

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The new video installation by Swedish artist Mats Hjelm, The Other Shore, is part of our periodic offer of temporary exhibitions of contemporary foreign and Brazilian artists whose works, especially when not represented in the Museu de Arte Moderna collections, complement its modern and contemporary profile. But aside from this relevance, there are specific questions that further underline and justify MAM’s claim as a prime venue for such an exhibition. Set on the sea front of Rio de Janeiro in the South Atlantic, it occupies, according to Hjelm’s poetic criteria, one of the shores visible in the work.
The Other Shore posits a poetic reflection about the Atlantic as a space of transit between the different shores of this ocean that link histories of diaspora, colonization, and the mystery of liberation by navigating to an “other” place, as well as the horrors of captivity awaiting those who are shipped against their will and the voyage back to their homeland.
Hjelm’s multimedia syntax, produced by the edited correlation of images, texts, music, and song – media often separated in purist, autonomous notions of language inherited from modernism – comes together in a hybridized whole, like a poetic equivalent of our polarized daily lives. As a result, The Other Shore has a powerful semantic and narrative drive that makes it overflow from the internal structure of linguistic systems to the outside world, with which it poetically connects.
This outflowing does not, however, result from a linear edition of sounds and images succeeding one another in a given sequence. There are four simultaneous projections, two by two, on the front and back of the screen, which show on one side audio and visual records of literary and musical works – people and landscapes – recorded on the shores of the Atlantic, combined in flows that do not always fit together logically. On the other side of the screen, projections of watery images evoke the fluid waterway formed by the shores that delimit the Atlantic like a gigantic ocean web that still enables the mass geographic circulation of human beings. A history that cannot be fathomed in the sphere of discourse, but which can be experienced here on a poetic plane.

Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes
Curators, MAM

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Reflexões de uma companheira de viagem

Mats Hjelm é um dançarino dos espaços intermediários ao criar narrativas em filme com calor no coração e frieza na precisão. É um bardo que tece delicadamente retalhos do tempo presente, da história, do inconsciente coletivo e momentos de intimidade em uma canção visual que ilumina a escuridão e pede uma presença intensa e silenciosa.
O método de Mats Hjelm é minucioso, atento, frágil e receptivo – como uma busca sem mapa que lembra a jornada do explorador solitário no tempo e no espaço. Um diário além das palavras que abre um mundo de imagens primordiais e infinitas.
A outra margem é uma trama que se move entre vários mundos onde passam memórias, palavras, sons e imagens que, ao alternar-se entre dor e esperança, formam padronagens em um ritmo constante, porém nunca se dando por completas. Esse patchwork de imagens se estende pelo oceano Atlântico de ponta aponta – onde os diversos continentes que o margeiam são tingidos de camadas sobre camadas de histórias.
Tendo trabalhado com videoinstalações e filme documentário desde o início dos anos 2000, Mats Hjelm costuma reavivar fragmentos de testemunhos históricos em seus trabalhos. Na obra Deliverance(2005), por exemplo, trouxe as gravações do julgamento de Bertolt Brecht em 1947 durante a era macarthista em uma projeção panorâmicano Museu Histórico de Estocolmo. Desde então, ele tem se interessado por uma jornada poética e pessoal que mostra narrativas de resistência, a memória coletiva, a capacidade humana para a fé e a necessidade de reconciliação como nos fragmentos da peça As cinzas (1959), de Samuel Beckett, em A outra margem.
A essas vozes somam-se tantas outras,assim como outros olhares de vários pontos de um oceano de imagens, que sobrepõem histórias diversas em um fluxo contínuo que é a característica do trabalho do artista.

Celia Prado
Diretora artística – The Swedish Artists’ Association

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Thoughts from a travel companion

Mats Hjelm is a dancer of the in-between and creates multifaceted filmic narratives with a warm heart and cool precision. Hjelm is a bard who delicately weaves together contemporary history, facts, the collective unconscious and intimacy into a visual song that illuminates darkness and calls for a quiet and intensive presence.
Hjelm’s method is careful, aware, fragile and receptive – like a search without a map that reminds of the lone explorer’s journey into time and space. A diary beyond words that opens onto a world of images, bare and endless.

The Other Shore is a weave in and out of different worlds. In the warp we see memories, words, images that alternate between pain and hopefulness, a rhythm of patterns in a constant beat that resonatesin a longing to become complete. It is an image patchwork that stretches across the Atlantic and where different continents are colored with layer upon layer of stories.
Having worked in video installations and documentary film since the early 2000s, Mats Hjelm often revives broken testimonies in his works, like Bertolt Brecht’s trial statements from 1947 for the “House of Un-American Activities Committee’ during the McCarthy era in a panorama film Deliverance (2005) at the Historical Museum in Stockholm. Since then, Hjelm has been interested in a poetic and personal journey through recent history, memory, the human capacity for faith and the need for reconciliation, as with Samuel Beckett’s “Embers” (1959) in The Other Shore.
These voices trace folds upon folds on recent and contemporary history in an artistic continuum that characterizes Hjelm’s work.

Celia Prado
Artistic Director – The Swedish Artists’ Association

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