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Jaildo Marinho – Cristalização

27 de Maio a 02 de Julho de 2017

Artista brasileiro radicado em Paris há mais de 20 anos, Jaildo Marinho apresenta sua produção recente na mostra Cristalização. Formada por 13 pinturas, uma instalação e cinco esculturas, a mostra é uma releitura da abstração geométrico-construtiva que exerceu prolongada influência na arte moderna brasileira. Ao integrar nestas obras elementos formais construtivistas e materiais clássicos (mármore de carrara, por exemplo), Marinho os ressignifica no universo híbrido da produção contemporânea.

Curadoria: Jacques Leenhardt
Realização: Pinakotheke Cultural

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Cristalização de Jaildo Marinho
Jacques Leenhardt

Esta exposição de Jaildo Marinho está organizada em torno de uma instalação central: Cristalização (2017). Em um ambiente impregnado pelas cores da ametista, essa peça é construída em redor de um vazio: essa é, em geologia, a condição para que o tempo infinito dos processos minerais venha a formar cristais que, ao se desenvolverem livremente, acabam constituindo um geodo. Emblema da exposição inteira, essa estrutura cristalina reproduz, na escala do museu, o longo processo através do qual se elabora o mundo mineral, mediante reduplicações e simetria.

Flávio de Carvalho declarava em seu Manifesto para o Salão de Maio de 1939: “A arte abstrata, safando-se do inconsciente ancestral, libertando-se do narcisismo da representação figurada, da sujeira e da selvageria do homem, introduz no mundo plástico um aspecto higiênico: a linha livre e a cor pura, quantidades pertencentes ao mundo de raciocínio puro, a um mundo não subjetivo que tende ao neutro.” A exposição de Jaildo Marinho constitui uma reflexão profundamente renovada a partir de Mondrian e do neoconcretismo brasileiro, o de Hélio Oiticica e de Waldemar Cordeiro.
A geração de artistas da qual Jaildo faz parte pensa imediatamente em termos de espaço perceptivo e, portanto, também de espaço de museu. A obra deixa de ser considerada em sua autonomia de objeto confinado em si mesmo. Ela pertence, de imediato, a um conjunto: cada parte traz a sua contribuição para a exposição, como um todo que oferece a moldura em que cada elemento adquire o seu sentido.
Ao colocar a sua exposição sob o signo da cristalização, Jaildo impõe a evidência dinâmica da repetição, do efeito especular e da estrutura abismal enquanto princípios composicionais.
Ao conferir uma importância particular à luz e às suas variações em Cristalização, Jaildo Marinho reposiciona o espectador e a sua sensibilidade no âmago do processo artístico. A pulsação da luz no geodo assinala o face a face entre o tempo da visita, sensível e movente, que ritma a existência do observador, por um lado, e, por outro, o tempo mineral secular que arbitra a fabricação do cristal. A tensão entre essas duas temporalidades abre à força, aqui, as portas misteriosas do incomensurável. A vida – a pequena diferença que nos faz existir em sua fragilidade apreensiva, simbolizada pelo fluxo colorido da luz – é confrontada com o rigor cristalino das telas. A pujança enigmática desse dispositivo submerge o espectador em frente ao choque entre os jogos incertos de sua própria memória e a insuperável fixidez do tempo mineral. Eis uma experiência estética única que enfatiza o valor inestimável desta exposição de Jaildo Marinho.

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Crystallization by Jaildo Marinho
Jacques Leenhardt

The present Jaildo Marinho exhibition is organized around a central installation: Crystallization (2017). Set in an environment of amethyst tints, this piece is built so as to surround a vacuum: in Geology, that is the condition under which the endless timespan of the mineral processes engenders crystals which, evolving freely, will finally become geodes. Emblematic of the exhibition as a whole, the crystalline structure recreates by the museum staircase the long process through which the mineral world is built through duplication and symmetry.

Flavio de Carvalho stated in his Manifesto for the 1939 Salon de Mai: “Abstract art, freed from the ancestral subconscious, released from the narcissism of figurative representation, from the filth and the savagery of man, introduces a hygienic aspect to the art world: free trace and pure color, quantities belonging to the world of pure reason, a non-subjective world that tends towards neutrality.” The Jaildo Marinho exhibit sheds profoundly renovating light on Mondrian and Brazilian neo-concretism, on Helio Oiticica and Waldemar Cordeiro.

The generation of artists to which Jaildo belongs thinks first in terms of perceptible space and hence also in terms of museum space. The work of art is no longer appreciated in its autonomy as a self-enclosed object. It belongs primarily to an ensemble, to which each part brings its contribution, to the exhibition as a whole, which provides the framework from which each element draws its meaning.
In placing his exhibition under the sign of crystallization, Jaildo imposes the dynamic evidence of repetition, of mirror reflection and of mise en abîme as compositional elements.

In giving particular importance to light and its variations in Crystallization, Jaildo Marinho sets the spectator and their sensibility at the heart of the artistic process. The pulse of light through the geode marks the contrast between the duration of the visit, discernible and fleeting, that defines the pace of the viewers’ existence, and the secular timespan of the mineral, that dictates the creation of the crystal. Here the tension between the two temporalities forces open the mysterious gates to the unfathomable. Life, that slight difference made by our existence, its restless fragility symbolized in the colored flux of light, is confronted with the crystalline rigor of the canvas. The enigmatic power of this artifice plunges the spectator into shock, between the uncertain tricks of their own memory and the insurmountable stillness of mineral time. In that you have a unique aesthetic experience, which is the true reward to be found in Jaildo Marinho’s exhibition.

 

 

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