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IMAGENS DA ESCURIDÃO E DA RESISTÊNCIA

18 de Dezembro a 22 de Fevereiro de 2015

A frase-estandarte “seja marginal, seja herói”, escrita por Oiticica no começo da ditadura, não fazia uma apologia ao crime. Era uma convocação à resistência, à necessidade de cada um enfrentar a naturalização de um estado de exceção que se tornara norma. Ser marginal era optar pela margem, pela não acomodação, pela dissidência. Se a ordem é perversa é uma exigência ética enfrentá-la. Sempre.

Em junho de 2013 as ruas brasileiras foram tomadas por milhões de cidadãos insatisfeitos com uma sociedade que teima em se desenvolver negligenciando direitos básicos de cidadania. Vivemos atavicamente na aceitação passiva, quase cínica, de que não há nada a fazer, que estamos condenados à injustiça e aos privilégios. A ida às ruas é a recusa desta lógica internalizada da exclusão. Cada um assumia sua própria bandeira cuja síntese veio estampada em um dos milhares de cartazes que saiu às ruas: “é tanta coisa errada que não cabe aqui”.

Não há fórmulas para se engajar e resistir. Em momentos de crise, ter voz e buscar espaços para exprimi-la é um exercício ético e estético. Ético, na medida em que afirmamos nossa responsabilidade como indivíduos livres inseridos em uma coletividade múltipla. Estético, uma vez que a expressão da voz requer formas de visibilidade e de enunciação que desloquem os sentidos instituídos e abram novas perspectivas para uma vida em comum não opressiva.

Todos os “artistas” aqui expostos viveram e vivem sob a exigência de lançar alguma luz no que fica preso à escuridão. Apresentar pela primeira vez a Cosmococa de Oiticica e Vergara, além de outros artistas consagrados, junto com coletivos recentes e artivistas, é um privilégio para o MAM. Seja nos duros anos da ditadura, seja no enfrentamento de uma democracia policialesca, a arte sempre se desdobrou em exercício político. Esta pequena exposição que acompanha a “Operação Condor” de João Pina, é uma forma do MAM recusar, nestes 50 anos do golpe, qualquer acomodação diante da memória da ditadura.

 

 

Do pó ao pó – arte, ética e amizade na CC9 de Hélio Oiticica e Carlos Vergara

Autor: Frederico Coelho

Durante os sete anos em que morou em Manhattan, Nova Iorque, Hélio Oiticica se empenhou na transformação de sua prática artística e na própria ideia de Arte que conduziria sua criação estética. Vivendo um impasse em relação aos formatos tradicionais de produção e exposição de suas obras, ele passa a investir em novas frentes criativas, como o cinema, a escrita, pôsteres, gravações sonoras e parcerias. São através de parcerias que surgem as Proposições, uma das principais formas em que ele praticou essa investigação ao redor da produção e do pensamentosobre uma obra de arte.

As Proposições de Oiticica eram sugestões de trabalhos (performances, instalações) elaboradas pelo artista para que fossem executadas por terceiros. Como diz o nome do trabalho, ele propunha uma situação de trabalho, com planos e etapas detalhados do que deveria ser feito. Apesar de não ser o executor, o processo de propor as obras fazia de Oiticica uma espécie de parceiro-em-extensão, já que eram boladas de forma específica para cada um dos interlocutores. Era um tipo de trabalho que deveria relacionar com parceiros suas potencias criadoras, suas histórias de vidaesuastrajetóriasconjuntas.

A proposição CC9, portanto, foi concebida por Oiticica especialmente para seu grande amigo Carlos Vergara. Ela nasce do desdobramento de sua principal obra no período nova-iorquino: as Cosmococas (CCs). Concebida em parceria com o cineasta Neville de Almeida, as CCs iniciaram sua série em 1973. Com trajetória já conhecida no meio internacional da arte contemporânea mundial, as CCs tiveram dois momentos de produção. Da CC1 até a CC5, todas foram fruto do encontro entre Oiticica e Neville, ainda em 1973. Após esse primeiro momento, Oiticica ainda desenvolveria mais quatroCCs independentes das primeiras parcerias. As quatro, tornavam-se proposições: uma para Thomas Valentin, uma para Guy Brett, uma com Silviano Santiago e a última, a CC9, para Carlos Vergara.

A CC9, como afirma Oiticica, era uma conversa entre ele e Vergara, relacionada à intimidade que ambos tinham sobre suas vidas e seus trabalhos. Na época, Vergara estava envolvido em uma série de fotos e filmes sobre o Cacique de Ramos, agremiação carnavalesca da Zona Norte carioca. Suas fotos e seus relatos impressionavam muito Oiticica e o atraia pela sua relação intensa com o carnaval em geral e com a Mangueira em particular. Esses mundos que conectavam Vergara, Oiticica, o carnaval e os morros cariocas, fazia com que eles dois tivessem todo um universo marginal permeando certas conversas e situações criativas e afetivas.

A CC9 traz a marca de Oiticica e, simultaneamente, incorpora Vergara ao seu universo criativo. Sua proposição foi feita exatamente um ano depois de criada a primeira CC com Neville de Almeida (março de 1973). O mote da proposta eram dois: fazer com que Vergara registrasse o cotidiano do Morro de São Carlos, no Estácio, bairro central do Rio de Janeiro e homenagear um amigo morto em fevereiro de 1974. Era no São Carlos que morava Zezé, mãe de Rose, grande amiga de Oiticica desde seus tempos de passista da Mangueira. Suas amizades no São Carlos ainda envolviam outros familiares de Rose, como Rubia, Tineca, Luiz Melodia e Renô, o amigo homenageado e principal personagem da CC9.

Amigo de Oiticica desde os tempos da Mangueira, Renô se envolveu algumas vezes com a criminalidade e ficou preso em alguns presídios do Estado. Entre eles, o complexo Frei Caneca, localizado entre as regiões do Estácio e da Praça Onze, no Rio. São esses elementos – Renô, a prisão, a criminalidade, o Complexo Frei Caneca – que ligam quarenta anos de trabalho.

Hoje, 2014, a proposta de Oiticica para Carlos Vergara se encaixa de forma orgânica e surpreendente na biografia e no trabalho do amigo. É porque há dois anos Vergara desenvolve uma reflexão ética e estética sobre a demolição do Complexo Frei Caneca em sua série de trabalhos ao redor do tema Liberdade. São pinturas, monotipias, gravuras, esculturas, instalações e vídeos que ele vem apresentando em exposições ao redor do país e do mundo, cujo eixo central é uma reflexão sobre o sistema prisional e sua contra-face, isto é, como vivermos juntos, sem confinarmos o excluído ao degredo absoluto.

Hélio Oiticica tinha em Renô um dos seus grandes amigos. Mesmo com o primeiro morando em Londres durante 1969 e o segundocumprindopena na cadeia, eles trocaram correspondências. A CC9 era uma homenagem de Oiticica ao seu grande amigo, cuja relação com a criminalidade – e a malandragem dos morros cariocas – sempre exerceu fascínio sobre ele. Desde sua relação com os morros cariocas que Oiticica tinha visto no comportamento da bandidagem de seu tempo um caráter eminentemente ético frente à violência de Estado dos anos 1960. Nomes como Renô – e Orelinha, Cara de Cavalo e outros mais – estavam no cerne do lema “seja marginal, seja herói”.

Carlos Vergara montar a CC9 em 2014 é, portanto, um ato de refundação de uma linhagem de amizadesentre Renô, Oiticica e Vergara. Amizades que amadurecem ao longo do tempo, superando mortes e se adaptando às mudanças da história de cada um e do próprio país. Vergara torna-se, hoje, o elo central da corrente, criador privilegiado, pois pode revisitar a proposição de 1974 e reinseri-la em novos sentidos, expandindo e atualizando a parceira com Oiticica.

Por fim, um ponto chave na proposição original de Oiticica (1974) e na montagem de Vergara (2014) é o aspecto da cocaoculta, termo criado pelo primeiro para mostrar a especificidade dessa Cosmococa de aniversário. Se todas as CCs tinham no pó branco um protagonista, a CC9 era justamente o contrário: a cocaína devia sumir, se metamorfosear em outras frentes sensíveis de presença. Na sua montagem atual, Carlos Vergara faz com que a polissemia da gíria “pó”, usada para falar da cocaína, seja vista na espessa nuvem de fumaça que se levanta ao vermos em seu vídeo a implosão do Complexo Frei Caneca. Mesmo espaço em que Renô estava preso quando falece. Mesmo espaço em que o Morro de São Carlos se localiza. Em uma espiral do destino, a proposição de Oiticica, a vida de Renô e o trabalho de Vergara se encontram na hora exata. Essa potente articulação da arte, da vida e da história talvez seja o principal componente da CC9 que agora temos o privilégio de assistir sua estreia.

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